Coin control: como não entregar seu histórico inteiro numa transação

Por João Trein · 01 de novembro de 2026

Você sacou da corretora com CPF, comprou um pouco sem KYC, recebeu um pagamento de alguém. Tá tudo na mesma carteira. Aí faz um envio qualquer e a carteira junta essas moedas numa transação só. Pronto: quem olhar a blockchain agora sabe que tudo isso é seu. Coin control é escolher, na mão, quais moedas entram em cada envio.

Seu saldo não é um número, são várias moedas

No Bitcoin não existe "saldo" guardado em lugar nenhum. O que existe são saídas de transações que ainda não foram gastas, as famosas UTXOs. Cada vez que você recebe bitcoin, nasce uma UTXO nova, com valor fixo. O saldo que a carteira mostra é só a soma delas.

Na hora de gastar, a UTXO não é "descontada". Ela é consumida inteira. Se você tem uma UTXO de 0,01 BTC e paga 0,003, a transação gasta os 0,01 inteiros, manda 0,003 pro destino e devolve o resto pra você num endereço novo, o troco.

Isso tem duas consequências diretas pra sua privacidade:

  • Quem recebe seu pagamento vê as UTXOs que você usou e tem uma ideia de quanto você tem.

  • O troco volta pra você, e dá pra acompanhar quando ele for gasto de novo, e o troco do troco, e assim por diante.

A regra que entrega todo mundo

Quando uma transação usa várias UTXOs como entrada, a suposição padrão é que todas pertencem à mesma pessoa. Isso não é invenção de empresa de análise de blockchain. Está no próprio whitepaper do Bitcoin, na seção de privacidade: transações com várias entradas revelam que essas entradas tinham o mesmo dono, e se o dono de uma chave for descoberto, a ligação pode revelar outras transações dele.

Na prática: basta uma UTXO ligada ao seu nome pra contaminar todas as outras que forem gastas junto com ela. E UTXO ligada ao seu nome é o que não falta. Todo saque de corretora brasileira sai de uma conta com seu CPF, e as corretoras daqui reportam as operações dos clientes à Receita Federal.

Se essa UTXO do saque for gasta junto com a que você comprou sem cadastro, a compra sem cadastro deixa de ser sem cadastro. Quem imaginaria, né?

Por que isso importa pra quem não deve nada

Não é sobre esconder coisa errada. É sobre não entregar de graça o tamanho do seu patrimônio. Banco de dados de corretora vaza, e vazamento de dados é o caminho mais curto até o ataque físico, como está em Ataque da chave inglesa: como proteger seu Bitcoin de um sequestro. Se o seu endereço de saque conecta com o resto da sua carteira, quem tem o vazamento sabe exatamente quanto vale a pena te procurar.

Na prática: coin control no Sparrow

A maioria das carteiras de celular escolhe as UTXOs sozinha. O Sparrow deixa você escolher, e é por isso que ele é a ferramenta certa pra isso.

1. Rotule tudo o que entra

Toda vez que receber, dê um nome pro recebimento: "saque corretora X", "compra P2P", "pagamento fulano". O Sparrow tem coluna de rótulo (Label) nas transações, endereços e UTXOs. Os rótulos ficam só na sua carteira, não vão pra blockchain.

Sem rótulo, daqui a seis meses você não vai lembrar de onde veio cada moeda. Aí não tem como separar nada.

2. Escolha as moedas antes de enviar

  1. Abra a aba UTXOs.

  2. Selecione só as UTXOs que você quer gastar (todas da mesma origem).

  3. Clique em Send Selected. A transação vai ser montada só com elas.

  4. Confira na tela da transação quais entradas estão sendo usadas antes de assinar.

3. Congele o que não deve ser tocado

Na mesma aba, clique com o botão direito numa UTXO e use a opção Freeze (congelar). Moeda congelada não entra em nenhum envio até você descongelar. Serve pra duas coisas:

  • Deixar separadas as moedas que você não quer misturar com o resto.

  • Neutralizar o dust attack: alguém manda uma quantia minúscula pro seu endereço esperando que você gaste junto com o resto, pra conseguir ligar suas moedas. Recebeu um valor ínfimo que você não esperava? Congela e esquece.

Separar por carteira é ainda melhor

Coin control resolve no detalhe, mas exige disciplina em cada envio. Um erro e já era. O jeito mais robusto é nem deixar as moedas na mesma carteira:

  • Uma carteira pra tudo que veio com KYC (saque de corretora).

  • Outra carteira, com outra seed ou outra passphrase, pra tudo que veio sem cadastro.

Se você usa passphrase, cada passphrase diferente já gera uma carteira diferente com a mesma seed. Os cuidados com isso estão em Passphrase: a 25ª palavra que pode salvar ou destruir seu patrimônio.

E não adianta separar e depois mandar de uma carteira pra outra. Transferir da carteira KYC pra carteira sem KYC liga as duas do mesmo jeito.

Outros erros que desfazem o trabalho

  • Reutilizar endereço. O whitepaper já recomendava um par de chaves novo pra cada transação. Use sempre um endereço novo pra receber; o Sparrow e qualquer carteira decente geram isso automaticamente.

  • Consolidar tudo "pra economizar taxa". Juntar várias UTXOs numa só faz sentido com taxa baixa, mas só entre moedas da mesma origem. Consolidar tudo junto é fazer a análise de blockchain de graça pra quem quiser olhar.

  • Gastar o troco junto com outra origem. O troco herda a origem da UTXO que o gerou. Rotule o troco também.

  • Consultar saldo em servidor de terceiro. A carteira pergunta ao servidor quais são seus endereços. Quem roda o servidor vê tudo. Com nó próprio isso some; enquanto não tiver, pelo menos não consulte sua carteira inteira em explorador público.

Resumo

  • Seu saldo é um conjunto de UTXOs, e cada uma tem uma origem.

  • Gastar várias UTXOs juntas mostra pra todo mundo que elas são do mesmo dono.

  • Uma UTXO com seu CPF contamina todas que forem gastas junto com ela.

  • No Sparrow: rotule tudo, use Send Selected na aba UTXOs e congele o que não deve ser tocado.

  • Recebeu poeira que não esperava? Congela.

  • Melhor ainda: carteiras separadas pra moedas com e sem KYC, e nunca transferir de uma pra outra.